quarta-feira, 16 de abril de 2014

Pão doce

 Pão doce
Por Ariadne Senna

  - Oi moça, você não tem preconceito não, né?

  Foi assim que ela me abordou, Priscila, uma travesti moradora de rua que me interrompeu quando eu estava a uma quadra de chegar em minha casa. Respondi a ela que não e então Priscila se aproximou me dizendo que estava com muita fome e que não ia pedir dinheiro não, mas que agradeceria se eu pudesse lhe pagar ao menos um café com leite.
  Olhei para a quadra seguinte na qual estava a minha casa, senti o cansaço das minhas pernas e o peso das sacolas que eu carregava nas mãos depois de um dia agitado, olhei para a quadra de trás e então decidi ir com Priscila até a padaria mais próxima.

  - Desculpa fazer você voltar todo esse caminho – Priscila me disse.

  Respondi que não tinha problema porque era domingo e eu não estava com pressa, afinal, a correria durante a semana já é tanta que no domingo é preciso acalmar um pouco. Ela sorriu.

  Priscila me explicou que geralmente no horário do almoço passa um grupo distribuindo marmitex, mas naquele dia eles não tinham passado e que, portanto, ela estava desde de manhã até às 17h com o estômago vazio.
  Chegamos à padaria e me surpreendi – e também me alegrei – quando Priscila entrou comigo no estabelecimento comercial, sem medos e nem receios! Muitas vezes quando comprei alguma comida para alguém em situação de rua, a pessoa ficou do lado de fora do comércio, mesmo que eu insistisse que ela me acompanhasse. Priscila não. Priscila, como uma rainha, entrou de forma a saber que era direito dela também estar dentro daquele local.
  Já havia decidido que não iria simplesmente comprar um café com leite para Priscila, pois acreditava que ela precisava de algo que a alimentasse de verdade. Olhando para uma estante da padaria perguntei se ela queria algum pão recheado e eis que ela me respondeu que não, que ela queria um doce, que estava precisando de um doce!
  Internamente dei uma risada e até mesmo a julguei muito brevemente, logo depois me identifiquei e lembrei-me de quantas vezes na vida tive a necessidade de um doce e substituí meu almoço por algo bem calórico e açucarado. Se eu tinha esta possibilidade, por que Priscila não a poderia ter?
  Fomos estão ver os doces e mostrei alguns bolos:

  - Não tem nenhum rocambole? - perguntou Priscila, procurando.
  - Tem sim, estão aqui. Tem esse de doce de leite e esse de limão.
  - O de limão deve ser ruim né?
  - Pra ser bem sincera é uma delícia! Eu já comprei esse de limão uma vez e bem, eu gosto bastante.

  Ela escolheu levar o rocambole de limão e eu consegui convencê-la a levar além disso um pão recheado para ela se alimentar um pouco melhor. Saímos da padaria e continuamos conversando. Priscila falava muitas coisas e comentava sobre as pessoas que passavam por nós com um certo ar zombeteiro, mas quando perguntei como era morar na rua sua feição mudou e ela não falou muito, aparentemente Priscila não queria comentar sobre este lado da vida.

  - Viver na rua é cada um por si e Deus por todos. Você come o pão que o diabo amassou todos os dias.

  Voltamos ao local em que tínhamos nos encontrado e Priscila me agradeceu, respondi que tinha sido um prazer conhecê-la e ter conversado com ela. Ela ficou e eu continuei, ela então desejou que eu seguisse com Deus e eu segui. Segui desejando que ao menos naquele dia Priscila comesse um pão que tivesse sido amassado com amor e carinho e que aquele rocambole adocicasse um pouco sua vida.

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